Amor de fim de noite |

Trago-te na memória com amor. Como naquela noite em que te tornaste o fim de várias. Inícios de madrugada em que os teus lençóis brancos me vestiam do que era teu. Escondidos por um amor que de tanto ser nosso não precisava do conhecimento de mais ninguém. Nunca tive problemas em dar-te a mão pelas ruas da cidade ou beijar-te o pescoço na esplanada do café. Mas a nossa essência soube sempre melhor dentro das nossas paredes.

As quatro daquele quarto que de tanto que viram, pouco podem falar. Porque estão proibidas. Como aquilo que gostávamos de ter os dois. Ficou um sinal à porta. Daqueles de sentido proibido que te impedem a passagem. A porta está aberta, mas tu não entras. Porque não podes. A porta está aberta. E eu não saio. Porque não posso. E isto é explicitamente o único motivo que nos separa. Uma porta que por mais aberta que esteja não te permite a passagem. Não te permite conheceres esta casa, este quarto que outrora foi mais meu do que teu.

Ainda consigo sentir o cheiro das manhãs em que me acordavas com abraços. O toque discreto da campainha quando chegavas de madrugada com saudades de mim, ainda o ouço algumas vezes. Já não sinto sabores. Mas se a memória não me falha, ainda tens gosto de amor. A cama já conheceu vários, mas as linhas vincadas naquele colchão ainda são do teu corpo. Ainda reparo em alguns fios de cabelo que encontro perdidos e quase todos me fazem lembrar do teu. Cabelos castanhos longos, de prazer. Como os teus olhos. Como quando descobri a felicidade neles. De quem os conhece e percebe que a verdadeira sorte de encontrar um trevo de quatro folhas é ter um.

Tu eras o meu. Mesmo quando não te procurava. Encontrei-te. Para fazer de ti vestida de branco a subires o altar. Para fazer de ti a mãe dos putos que iria ver a correr pelos corredores desta casa. Para fazer de ti realizada dos teus sonhos e comigo do teu lado. Mas nada disto é possível. Porque é proibido. Mas de tanto proibido que é mais vontade tenho. De fazer do nosso amor de fim de noite um amor para o resto da vida.

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