Coração de papel |

Sobre os beijos que demos às escondidas para que o mundo não descobrisse os jovens loucos e apaixonados que éramos. Não queríamos julgamentos. Não precisávamos disso. Sequer. Porque nos estávamos a apaixonar. Aos poucos. Devagarinho. Mas estávamos. Lembro-me da socapa que foi o nosso primeiro beijo. Envolvidos em risos e em medos daquela ser apenas a primeira e a última vez. Não foi, longe de ter sido. Soubesse eu. Hoje. Qual teria sido a última e teria eternizado o nosso toque até me tornar velhinha.

Até nos tornarmos o que hoje somos. Felizes. Mas cada um no seu caminho. Cada um na sua vida e com os seus amores. A casa está cheia de alegria. As crianças andam a correr pelas escadas e já me pediram para lhes contar histórias. Antes de adormecer. Daquelas que se contam antes do aconchego dos lençóis de boa noite. A mais pequena, muito catita e atrevida fez-me desenhar o meu coração em papel. Desenhei-o inteiro, confesso. Não nego as cicatrizes que me vão acompanhar para sempre. Mas está intacto. E ela dormiu a noite toda com o coração na cama e prometeu-me que nunca ia deixar que ninguém partisse o coração da mamã.

Não tive coragem de dizer nada. Nem preciso. Ela sabe que foste um dos meus amores mais bonitos. Fiz questão de lhe contar essa história, quando me apanhou a olhar para uma fotografia tua que ia guardar. “Quem é?” É uma memória feliz de linhas certas que a mamã escreveu na vida! Eu sei que ela, ao início, não percebeu. Mas o sorriso confessou-me. “Tens saudades do teu amigo, mamã?” De jogar às escondidas, de saltar em cima da cama, de contar histórias. Como te conto a ti. E ela, naquele preciso momento, percebeu. Que te devia ter desenhado o meu coração no papel. Devias ter dormido as noites todas com ele e ter feito tudo para não o partir!

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