Escrever-te |

As madrugadas servem sempre para os poetas rimarem. Para os músicos fazerem refrões. E para eu me lembrar de ti. Já perdi a conta de quantas vezes olhei para as horas enquanto escrevia. É tarde. Realmente é tarde. É de madrugada. E eu continuo aqui. Como sempre. A escrever-te. Julgando que alguma vez estas linhas te apareçam num livro qualquer daquela livraria onde entraste sem querer. Talvez o título do livro te chame à atenção. Talvez pegues nele e a curiosidade te faça ler a contracapa. Talvez vejas a minha fotografia. E talvez aí. Te lembres de mim.

Talvez. Quem sabe. As memórias do que não fomos te invadam a mente. Talvez o coração palpite um bocadinho mais depressa. Por não estares à espera de me ver ali. Numa fotografia de um livro que pegaste por acaso. Por acaso foi o livro certo. Ou errado. Saberás quando o tiveres na tua mão. Saberei se algum dia me quiseres contar como te sentiste quando me reencontraste ao fim de tanto tempo.

Não é um reencontro de uma novela. Onde estás fisicamente. E eu estou também. Mas reencontrares-me ali, estampada num livro que está na tua mão, é reencontrarmo-nos. Pelo menos, reencontraste-me. Não arrisco o verbo sem “re” porque sei que não andaste à minha procura.

Mas talvez compres o livro. O leias até ao fim e descubras que parte destas linhas que escrevi eram tuas. Ou talvez o deixes, simplesmente, no sítio onde estava. E nunca saberás que te amei mais do que era permitido. Talvez o livro que tinhas nas mãos fosse apenas mais um livro. Talvez o reencontro não tenha significado nada. É só mais um livro numa estante da livraria. E por isso, as coisas ficarão como estão: eu a escrever-te sem saber se algum dia me possas ler. 

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