Um dia, quem sabe |

Sei que cresci o bastante para ele não me conhecer mais. A altura é provável que seja a mesma, mas a maturidade chegou com os anos. E fui aprendendo a guardar o passado em gavetas trancadas a sete chaves. A dele não tranquei. As memórias dele estiveram sempre numa gaveta fechada, com as chaves do lado de fora. Porque sempre acreditei que um dia, o beijo que foi quase roubado teria finalmente um gosto a prazer. E que a cama iria finalmente ser desfeita com um amor que deveria ter ficado escrito nas ruas da cidade.

Passaram muitos anos e nenhuma parede ficou com o nosso amor registado. Sobrou-nos o que conhecemos um do outro. As manhãs difíceis de um silêncio que passava com café. Ou com os abraços que protegiam do resto do mundo. O teu sorriso que mantém o mesmo desejo de ser feliz. Os teus lábios, dizias-me, continuam iguais. Cheios de personalidade. Nunca ninguém me tinha elogiado os detalhes. Mas acreditei, porque a diferença esteve sempre nas pequenas coisas. E ele. Tu. Nunca me mentias. Digo-te o que realmente importa. Não o que queres ou preferes ouvir. Digo-te a verdade.

E ele dizia. E foi assim que aprendi. A ser dele. Por mais que ele me reconhecesse a capacidade de um dia vir a ser de muita gente. Um dia vais ser do país inteiro. Porque tu mereces. Pelo teu esforço e por sempre teres trabalhado para isso. Com a determinação mais inexplicável que eu alguma vez vi. Um dia vais ser do mundo, dizia. Mas eu só queria ser dele. E isso, eu já era. Um dia posso ser do país. Eventualmente do mundo. Mas não serei nenhuma delas, sem ser tua em primeiro.

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