1 de novembro? Ridículo

Sobre o dia de hoje não aceito, nem concordo. No calendário português, este dia é dedicado a homenagear todos os que já partiram. E nada melhor para o fazer do que enfeitar as campas dos familiares nos cemitérios, que passam todo o ano ao abandono. As pessoas vestem a sua melhor personagem e saem de casa com a saudade na boca. A mesma que devia morar no coração o ano inteiro.

As campas enchem-se de ramos e velas e os cemitérios viram um local de encontro onde as pessoas se reúnem para lamentar a dor da perda. Entre as lágrimas falsas e a tristeza forçada, há espaço e tempo para se falar deste e daquele. Daquele que já não se via há muito tempo, deste que está mais gordinho ou até daquele que já arranjou outra depois da mulher partir há tão poucos meses. Tudo serve de desculpa para se fazer o corte e costura, porque é rara a pessoa que não cumpre a tradição de ir deixar a florzinha nas lápides daqueles que já partiram e que culpa nenhuma têm do ridículo. Arriscaria a dizer que o bom deste dia é ser feriado, porque as pessoas na azáfama da sua vida ao longo do ano, não têm tempo para dispensar a comprar flores e velas e pelo menos, hoje conseguem fazê-lo.

Não sou mais do que ninguém para fazer juízos de valor, nem nada me dá o direito de generalizar pessoas. Mas confesso que me dá uma certa revolta da superficialidade dos sentimentos. Como muitos outros, este dia é mais um de negócio, mais um dia materialista onde grande parte deles acham que um ramo de flores lhes tranquiliza a consciência. Nada contra, mas quem me dera ter comigo os meus para lhes poder dar flores enquanto respiram. E falo de flores, apenas como um mero exemplo, porque o que eu queria realmente era que eles tivessem aqui. Para os abraçar e lhes dizer o quanto me fazem falta o ano inteiro. E não preciso dos cemitérios, nem das igrejas. Muitas vezes, é na minha cama agarrada à almofada que lhes confesso a saudade e lhes peço que me protejam para sempre.

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